Pesquisar

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Os rastros de petróleo em Sapopema

Fotos: Anderson Coelho
Panorama no sopé da Serra Grande, proximidades de Vida Nova; produção regular de petróleo de xisto na década de 40 amenizou escassez de combustíveis decorrente da guerra
"Tem xisto no município inteiro", diz Jorge Ferreira de Melo, que viu Aurélio Carneiro Lobo extrair 300 litros de óleo bruto por dia
Há 75 anos no lugar, desde que nasceu, Eusébio é outra testemunha da brevíssima fase do petróleo. "A gente era gurizada..."






















































Sapopema - O noticiário econômico vem chamando a atenção para o gás de xisto, considerando que os Estados Unidos aumentaram 100 vezes a produção em 20 anos e podem se tornar líderes mundiais em gás natural em 2015, superando a Rússia. Outra projeção é de que, até 2035, o gás natural passará do terceiro para o segundo lugar (atualmente ocupado pelo carvão) na matriz energética mundial, graças à extração do xisto em mais países, entre os quais a China, que detém a maior reserva, e o Brasil, presumivelmente o décimo entre os 12 maiores potenciais. 


Em Sapopema, há formações de xisto que afloram na superfície, por vezes escorrendo óleo a céu aberto. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando houve grande escassez de combustíveis, a extração de petróleo no local movimentou caminhões na região. 



Hoje, não há indicativos de que seria interessante a atividade, observa o geólogo Marcos Vitor Fabro, que atua na Mineropar (Minerais do Paraná S.A.). Respondendo à FOLHA, ele mencionou prospecções da Petrobras situando a viabilidade do xisto paranaense apenas em São Mateus do Sul, onde se mantém a produção de petróleo e gás. "Acho que essa avaliação ainda é correta do ponto de vista econômico", conclui. 



A extração do petróleo – em 1943, 44 e 45 – foi obra de Aurélio Carneiro Lobo, no lugar hoje conhecido por Bairro do Xisto; e a M. Lupion & Cia. (empresa do então futuro governador Moysés Lupion), em Figueira. As duas localidades pertenciam ao município de Araiporanga (depois denominado São Jerônimo da Serra). Para os veículos leves, o gasogênio (gás de carvão) era a alternativa; os caminhões necessitavam de combustível mais potente. Aurélio produziu óleo bruto e Lupion, diesel. 



Contemporâneos do fato se entusiasmam ao relatar, presumindo que a ocorrência ali ainda possa ter futuro econômico com o advento de novas tecnologias. "Tem xisto no município inteiro", diz Jorge Ferreira de Melo, que viu Aurélio Carneiro Lobo, o Cecéu, obter 300 litros de óleo bruto a cada 24 horas, por aquecimento. O mais surpreendente eram as rochas com peixes fossilizados, esqueletos perfeitos, recorda Jorginho, que tinha 14 anos e não imaginava que seria prefeito. 



Bairro do Xisto

No sopé da Serra Grande, a seis quilômetros do patrimônio Vida Nova, o Bairro do Xisto está assinalado até em fotografia por satélite. Mas, agora, é só uma área em que as rochas foram encobertas pela terraplanagem na entrada de uma fazenda de gado. Corresponde exatamente à informação de Eusébio Carneiro Buachak, morador há 75 anos na Vida Nova, desde que nasceu. E presenciou a extração de petróleo. "Foi em 1943? Eu sou de 38, a gente era gurizada..." 



Para Maurílio Freitas da Silva, morador há 50 anos, só máquina escavadeira pode descobrir o xisto, "não adianta a gente ir lá com enxada". 



Em 1978, aos 70 anos de idade, Aurélio Carneiro Lobo relatou à FOLHA a sua origem em duas tradicionais famílias de Jaguariaíva e a vocação de minerador que o levou, muito jovem, a garimpar diamantes em rios e a se envolver na localização de jazidas de carvão no Norte Pioneiro, quando conheceu o célebre geólogo Eusébio de Oliveira. E receberia, apesar de não ter formação superior, a "Comenda Couto de Magalhães", da Sociedade Geográfica Brasileira. 



Tinha mil alqueires em Sapopema, herdados do pai, e iniciou o aproveitamento do xisto em 1943, valendo-se de uma adaptação do processo alemão Ulman por seu amigo Teodoro Dietrich, em Curitiba. Retiradas do solo, as rochas de xisto passavam por um britador e os fragmentos eram postos em cinco retortas (recipientes de laboratório) e aquecidos entre 300 e 400 graus por fogo a lenha indireto em forno de tijolos. Daí a evaporação, passando o xisto em estado gasoso a um condensador e, por serpentinas, aos tanques. 



Resultavam dois produtos: a cada mil litros de óleo bruto, 200 litros de água amoniacal contendo ureia e amônia, elementos importados pela indústria de fertilizantes, porém descartada em Sapopema. Pela diferença de pesos, o óleo e a água ficavam separados nos tanques. 



Conforme Aurélio, o rendimento ficava entre 7% e 10% ou 7 a 10 litros de óleo por 100 do líquido apurado. Inconveniente: o poder corrosivo do óleo bruto diminuía a vida útil dos motores. Na década de 70, o Brasil ainda dependia do petróleo importado e impôs o racionamento de combustíveis com o segundo "choque" (1979/80) dos países produtores, que acumulou alta de 180% no preço internacional. No entender de Aurélio, poderia haver uma contribuição do xisto, se o governo liberasse as regiões de afloração a particulares, que entregariam o óleo bruto à Petrobras para refinar. 

FolhaWeb

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentário sobre essa notícia