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20 Sep
20Sep

Se existe uma especialidade do bolsonarismo, é a arte de apontar o dedo sujo enquanto esconde a mão inteira na lama. É exatamente o que está acontecendo no escândalo do Banco Master e de seu ex-dono, Daniel Vorcaro.

Nas últimas semanas, a militância bolsonarista entrou em frenesi nas redes sociais tentando colar a imagem de Vorcaro em adversários políticos, em ministros do STF e no governo Lula. Qualquer foto, qualquer menção, vira "prova" de conluio. O problema é que eles esqueceram de apagar o próprio rastro — e o rastro é enorme.

Vorcaro não virou banqueiro do nada. Como o próprio presidente Lula lembrou, o Master não era banco e foi transformado em instituição financeira durante o governo Jair Bolsonaro. Foi no governo Bolsonaro que ele cresceu, que ele ganhou musculatura e que começou a operar no centro do poder.

E quem estava lá, bem no centro?

O senador Flávio Bolsonaro, investigado por ter recebido pagamentos de Vorcaro para financiar o filme "Dark Horse", a cinebiografia laudatória do pai. O inquérito só veio à tona depois que o ministro André Mendonça levantou o sigilo.

O governador Tarcísio de Freitas, herdeiro político mais bem cotado do bolsonarismo, recebeu financiamento de campanha do banqueiro.

O deputado Nikolas Ferreira, o porta-voz mais barulhento da extrema-direita no Congresso, pegou carona no jatinho de luxo de Vorcaro.

O senador Ciro Nogueira, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, foi o autor da famosa "Emenda Master" no Congresso, que aumentaria a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão — uma medida feita sob medida para salvar o banco que já estava afundando.

E a lista não para nos políticos. As mensagens vazadas do celular de Vorcaro mostram um verdadeiro tapete vermelho estendido para o bolsonarismo no Judiciário. Filho de Luiz Fux trocando mensagens de "irmão" com o banqueiro, proximidade com Nunes Marques, Toffoli e Mendonça — todos hoje apontados como os "bolsonaristas de toga".

Enquanto isso, a tática é a velha de sempre: gritar bem alto sobre supostos laços dos outros para que ninguém olhe para os seus. Quando o escândalo envolve aliados, a grande mídia que eles tanto acusam de ser "esquerdista" curiosamente silencia, e eles aproveitam para inverter o jogo, mirando em Fábio Luís, o Lulinha, e em qualquer um que possa desviar o foco.

É cinismo em estado puro. Criticam adversários por uma foto com Vorcaro, mas esquecem que financiaram suas campanhas com o dinheiro dele. Atacam quem teve o nome citado em uma conversa, mas escondem que voaram no avião dele, que apresentaram emendas para salvá-lo e que transformaram um empresário em banqueiro dentro do Planalto.

No fim, a frase que resume o caso foi a mais certeira: Vorcaro virou banqueiro no governo Bolsonaro e virou prisioneiro no governo Lula. E é justamente por isso que os bolsonaristas gritam tanto. Quem está envolvido até o pescoço tem medo de se afogar quando a água sobe.