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07 Aug
07Aug

Durante décadas, a humanidade celebrou algumas de suas maiores vitórias: doenças que mataram milhões foram colocadas dentro de um frasco de vacina e, parecia, dentro dos livros de história. A varíola foi erradicada. A poliomielite quase desapareceu. O sarampo, que lotava enfermarias infantis no Brasil nos anos 80, tornou-se raro.

E agora, elas estão voltando.

Não é exagero. Segundo a OMS, o mundo registrou nos últimos dois anos o maior número de casos de sarampo em mais de 20 anos. A poliomielite, que estava restrita a dois países, voltou a ser detectada em esgotos de Londres, Nova York e Israel. A coqueluche, a difteria e até o escorbuto — doença ligada à falta de nutrientes — voltaram a aparecer em hospitais do Brasil e da Europa.

Por que uma doença que já tínhamos vencido volta a circular?

Não é porque o vírus ficou mais forte. É porque nós ficamos mais vulneráveis. E isso acontece por quatro motivos que se somam:

1. A queda da vacinação. Essa é a causa principal. 

No Brasil, a cobertura vacinal infantil caiu de mais de 95% em 2015 para menos de 75% em algumas vacinas em 2022. Quando menos de 95% das crianças estão vacinadas contra o sarampo, por exemplo, o vírus encontra espaço para voltar a se espalhar. O Brasil, que havia recebido o certificado de eliminação do sarampo em 2016, perdeu esse certificado em 2019.

2. A memória curta e a desinformação. 

Como não vemos mais crianças paralisadas pela pólio ou com o rosto coberto por sarampo, surge a falsa sensação de que a vacina não é mais necessária. Essa lacuna foi preenchida por redes de desinformação que espalham medo sobre efeitos colaterais que não existem.

3. Um mundo que se move rápido. 

Um vírus que surge em uma aldeia pode estar em um aeroporto internacional 24 horas depois. A globalização que traz comida, cultura e turismo, também traz patógenos de volta para lugares onde eles já tinham sido eliminados.

4. Crises, guerras e clima.

Conflitos derrubam sistemas de saúde e interrompem campanhas de vacinação. As mudanças climáticas expandem a área de mosquitos transmissores e deslocam populações inteiras, criando condições perfeitas para surtos.

O retorno dessas doenças é um alerta cruel, mas também esclarecedor: nenhuma doença é erradicada para sempre por um decreto. A erradicação é um contrato que precisa ser renovado a cada geração, com cada criança vacinada.

Esquecemos que as vacinas não eliminam apenas uma doença no corpo de uma pessoa. Elas eliminam a possibilidade da doença existir entre nós. Quando deixamos de nos vacinar, não estamos apenas abrindo uma porta individual. Estamos derrubando o muro que protegia todo mundo.

A história da saúde não anda em linha reta. Ela pode regredir. E a diferença entre avançar ou voltar, hoje, está literalmente na ponta de uma agulha.