Douglas Kuspiosz - Grupo Folha - Reprodução/ Instagram
O promotor Renato de Lima Castro, da 26ª Promotoria de Justiça de Londrina, instaurou um PIC (Procedimento Investigatório Criminal) para apurar a denúncia de que a vereadora Anne Moraes (PL) teria exigido que um assessor repassasse parte do seu salário para pagar um de seus advogados, o que pode caracterizar “rachadinha”. Se confirmada, a prática configura o crime de concussão, definido pela exigência de vantagem indevida em razão da função pública.
A promotoria teve acesso a prints de conversas do ex-assessor com um colega da CML (Câmara Municipal de Londrina), nas quais ele relata receio de ser exonerado pela vereadora. “Falou que ia me exonerar, mas que depois de 30 dias me chamava de novo”, escreveu o ex-assessor. “Ela queria que eu rachasse meu salário com o advogado dela.”
Em depoimento ao promotor, o ex-assessor confirmou a situação. “No meio da sessão, ela disse: ‘vamos lá fora conversar’. A gente foi e ela falou: ‘estou precisando de um valor e vou precisar te exonerar, porque preciso do seu salário. Ou eu te exonero e, daqui a 30 dias, como eu gosto de você e do seu trabalho, você volta por um valor menor, ou você continua como está seu salário, mas 50% vai ter que ir para o advogado”, relatou o ex-assessor, que garantiu ter recusado a proposta. Ele foi demitido pouco tempo depois.
O servidor trabalhou no gabinete de Anne Moraes entre 18 de agosto e 1º de dezembro de 2025, com salário bruto de R$ 8 mil.
A FOLHA também teve acesso ao depoimento do assessor parlamentar que foi procurado pelo ex-funcionário do gabinete de Anne Moraes. Ele confirmou que a troca de mensagens sobre a suposta exigência ocorreu no dia 12 de novembro de 2025.
Outro assessor parlamentar da Câmara disse que também foi procurado pelo ex-assessor e ouviu o mesmo relato. “Ele me chamou para conversar e falou que a Anne tinha oferecido duas propostas. Era baixar o salário dele ou ele ajudar a pagar um advogado", afirmou em depoimento.
A investigação da 26ª Promotoria de Justiça tramitava sob sigilo, mas o promotor tornou o procedimento público nesta sexta-feira (9). A vereadora ainda será chamada para prestar esclarecimentos ao Ministério Público.
Improbidade administrativa
Anne também é investigada em uma ação civil pública que apura o suposto uso de assessores de gabinete como advogados particulares. A denúncia de improbidade administrativa chegou primeiro à CML, na forma de uma representação, e depois passou a tramitar na 26ª Promotoria de Justiça, que ajuizou a ação.
A FOLHA apurou que, no Legislativo, a representação está na Mesa Executiva, que irá decidir se arquiva ou se dá prosseguimento à denúncia. Caso avance, o plenário da Câmara vai decidir se abre uma CP (Comissão Processante) contra a parlamentar, o que pode resultar na cassação do mandato. A vereadora sempre negou as acusações.
O que diz a vereadora
Em nota encaminhada à FOLHA, Anne Moraes afirmou que não tem conhecimento de qualquer investigação ou denúncia formal com esse conteúdo e diz que é “absolutamente inverídica” a afirmação de que teria exigido parte do salário de um assessor.
“Meu gabinete passa, sim, por uma rotatividade de equipe, algo comum em mandatos novos, especialmente em uma área sensível e específica como a causa animal, que exige alinhamento técnico, compromisso e visão de trabalho. Infelizmente, nem todos se adaptam a esse perfil, o que pode gerar insatisfações pessoais”, diz a parlamentar.
“Minha conduta sempre foi e continua sendo transparente, legal e ética. Caso exista qualquer acusação formal, farei o que sempre fiz desde que fui eleita: buscarei acesso aos autos e exercerei plenamente meu direito de defesa. Permanecerei à disposição para esclarecimentos dentro dos limites da responsabilidade institucional”, completa o texto.
Também em nota, o advogado Eduardo Caldeira, que representa Anne, reiterou que ainda não houve notificação oficial à vereadora ou à defesa.
“O conhecimento do caso ocorreu exclusivamente por meio da imprensa, o que naturalmente causa surpresa, especialmente diante da trajetória pública da vereadora Anne, sempre marcada pela legalidade, transparência e respeito às instituições”, diz Caldeira.
O defensor aponta que as informações “não correspondem à verdade dos fatos". “A vereadora sempre exerceu seu mandato de forma correta, ética e comprometida com o interesse público, ajudando pessoas, dialogando com a comunidade e atuando dentro dos limites da lei”, continua o advogado.
“Com tranquilidade e respeito, reafirmamos que a vereadora está à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários, no tempo adequado e pelos meios institucionais corretos, confiando que qualquer apuração será conduzida com equilíbrio, responsabilidade e justiça. Seguimos acreditando no devido processo legal e no trabalho sério das instituições, certos de que os fatos, quando devidamente esclarecidos, demonstrarão a lisura da atuação parlamentar.”