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08 Aug
08Aug

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica foi criado para ser um termômetro honesto: de um lado, a nota dos alunos no SAEB, de outro, a taxa de aprovação. Juntando os dois, teríamos um retrato fiel da qualidade. Na teoria, perfeito. Na prática, tornou-se um jogo de números onde quem manipula o termômetro parece curar a febre.

E quem manipula são, em grande parte, as próprias secretarias estaduais e municipais de educação.

Como funciona a farsa? De forma simples e cruel:

1. A aprovação automática disfarçada. 

Como o IDEB pune a reprovação, a ordem velada que desce dos gabinetes é clara: ninguém reprova. Alunos que mal sabem ler e escrever no 9º ano são empurrados para o ensino médio. Alunos do 5º ano que não dominam as quatro operações são aprovados por "progressão continuada". O índice de fluxo vai a 98%, 99%, o IDEB sobe, o secretário posa para foto com troféu. O aluno, analfabeto funcional, é quem paga a conta lá na frente.

2. O treinamento para a prova, não a educação para a vida. 

Meses antes do SAEB, escolas viram cursinhos. Suspende-se arte, ciências, debate. Aplica-se simulado atrás de simulado apenas de português e matemática no formato exato da prova. Não se ensina a interpretar o mundo, ensina-se a marcar o gabarito. A nota sobe, mas é uma nota oca.

3. A maquiagem da lista de alunos. 

É a prática mais perversa e mais comum: no dia da avaliação, os alunos com maior defasagem, os com deficiência sem suporte, os mais indisciplinados, são orientados a não comparecer. "Traz atestado", "hoje não precisa vir". Tira-se da conta justamente quem o sistema já abandonou. O resultado, claro, melhora.

O que os secretários estaduais e municipais de educação vendem em Brasília, em congressos e em propagandas caras na TV local é um Brasil de IDEB 6, 7, 8. O que existe na sala de aula real é o Brasil onde um jovem conclui o ensino médio sem conseguir entender um contrato de trabalho, sem conseguir calcular 10% de juros, sem conseguir escrever um parágrafo com coesão.

O IDEB manipulado é perfeito para todos, exceto para o aluno. É perfeito para o prefeito que quer se reeleger como "o prefeito da educação". É perfeito para o governador que quer mostrar eficiência. É perfeito para o Ministério que quer apresentar gráficos bonitos para organismos internacionais.

É um pacto de mediocridade institucionalizado: o sistema finge que ensina, o aluno finge que aprende, e a secretaria registra que tudo vai muito bem.

Enquanto o foco for bater meta de índice e não garantir alfabetização real, continuaremos sendo um país de diplomas sem conhecimento, de estatísticas de primeiro mundo e salas de aula de quarto mundo. O IDEB, que nasceu para revelar a verdade, hoje é o principal instrumento para escondê-la.

Joel Vieira - Tribuna da Serra