Por: Joel Vieira
Enquanto o debate público é sequestrado para atacar quem recebe R$ 600 para comer, os supersalários, os templos milionários e o agronegócio bilionário seguem intocáveis no orçamento.
Brasília vive de criar cortina de fumaça. E a mais eficiente delas tem nome, rosto e cor: o Bolsa Família. Toda vez que o país precisa discutir rombo fiscal, corte de gastos ou responsabilidade com o dinheiro público, o dedo aponta para os R$ 14 bilhões por mês que garantem comida na mesa de 20 milhões de famílias. O que ninguém mostra no horário nobre é a outra conta. A conta dos bilhões que nunca entram nos cofres.
1. Os políticos e o auxílio que ninguém chama de bolsa
Um deputado federal custa mais de R$ 2,5 milhões por ano ao país entre salário, verba de gabinete, cota parlamentar, auxílio-moradia, plano de saúde vitalício e aposentadoria especial. Senadores, juízes, procuradores e militares do alto escalão acumulam supersalários acima do teto constitucional com penduricalhos que a Receita finge não ver. São as chamadas verbas indenizatórias: isentas de Imposto de Renda, isentas de questionamento.
Só o Judiciário e o Legislativo federal deixam de arrecadar mais de R$ 12 bilhões por ano em isenções sobre esses penduricalhos. Ninguém propõe pente-fino. Ninguém chama de mamata.
2. As igrejas bilionárias e o templo da imunidade
Pela Constituição, igrejas têm imunidade tributária. Na prática, isso virou um modelo de negócio blindado. Império de templos, fazendas, TVs, rádios, editoras, shows e até bancos, tudo registrado em nome da igreja, tudo livre de IR, IPTU, IPVA e ISS.
Levantamento da Receita aponta que a renúncia fiscal para entidades religiosas já ultrapassa R$ 1,6 bilhão por ano, e isso sem contar a farra das isenções previdenciárias perdoadas nos últimos governos. Em 2023 e 2024, dívidas de igrejas com a Previdência foram anistiadas em mais de R$ 2 bilhões. Enquanto isso, o pastor cobra dízimo no Pix e chama o Bolsa Família de esmola que vicia o pobre.
3. O agro que bate recorde e não paga a conta
O agronegócio é o orgulho do PIB e o calote do orçamento. Agrotóxicos são isentos de IPI e têm redução de 60% de ICMS em quase todo o país. Exportação de soja, milho e carne é totalmente desonerada pela Lei Kandir. Grandes produtores rurais têm perdão recorrente de dívidas do Funrural, que já somou mais de R$ 17 bilhões em renúncias.
O estudo do Tesouro mostra: só as desonerações para o setor agropecuário custam mais de R$ 40 bilhões por ano aos cofres públicos. É mais que o dobro do orçamento anual inteiro do Bolsa Família. Mas o agro não é chamado de dependente do governo. É chamado de motor do Brasil.
No fim, a matemática é simples e cruel. O governo deixa de arrecadar mais de R$ 600 bilhões por ano em isenções, incentivos e imunidades concentradas no topo. Desse total, menos de 15% vai para políticas sociais diretas.
Atacar o Bolsa Família é barato, dá clique e rende voto. Enfrentar os privilégios de políticos, bispos e latifundiários custa caro e cobra coragem. Por isso o roteiro se repete: quando falta dinheiro para saúde e educação, a culpa nunca é de quem recebe bilhões para não pagar imposto. A culpa é de quem recebe R$ 600 para não passar fome.