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01 Nov
01Nov

Por [Tribuna da Serra] Atualizado em novembro de 2026

A cidade do Norte Pioneiro contrasta com o perfil político predominante no estado ao manter uma trajetória de forte oposição à onda conservadora que dominou a região.

O Paraná é amplamente conhecido no cenário político nacional como um dos redutos mais consolidados do conservadorismo e do bolsonarismo no Sul do país. Nas urnas, a preferência por candidatos alinhados à direita e à extrema-direita costuma se repetir com margens expressivas em quase todas as regiões. No entanto, no coração do Norte Pioneiro paranaense, um município desafia essa lógica e escreve uma história distinta: São Jerônimo da Serra.

Com pouco mais de 11 mil habitantes, a cidade tem se destacado por na contramão da polarização estadual, mantendo vivas raízes progressistas e de esquerda que resistem ao avanço da maré bolsonarista.

Singularidade política no Norte Pioneiro

Historicamente, o perfil socioeconômico e demográfico de São Jerônimo da Serra ajuda a explicar essa exceção. O município possui uma forte presença de movimentos sociais, sindicatos rurais e comunidades tradicionais que moldaram a identidade política local ao longo das últimas décadas. Enquanto cidades vizinhas registraram vitórias acachapantes de lideranças conservadoras, São Jerônimo consistentemente vota em contraponto à média estadual.

Especialistas em ciência política apontam que a resistência ao bolsonarismo em redutos menores costuma estar atrelada à força de lideranças comunitárias locais e a pautas voltadas à agricultura familiar, à educação pública e aos direitos humanos.

"São Jerônimo da Serra demonstra que a homogeneidade política do Paraná não é absoluta. Existem territórios onde o tecido social é construído sobre bases diferentes, priorizando o associativismo e a assistência mútua", avalia um cientista político da região.

O cotidiano de uma cidade em contraste

Apesar do cenário político diferenciado, o dia a dia da cidade lida com os mesmos desafios estruturais comuns aos pequenos municípios brasileiros, como a geração de empregos, a atração de investimentos e a melhoria na infraestrutura de saúde e educação. A diferença reside na forma como a comunidade debate o futuro e se organiza politicamente.

Enquanto o estado discute privatizações, grandes obras rodoviárias e alinhamentos ideológicos estaduais, em São Jerônimo as conversas nas praças e comércios locais frequentemente giram em torno da valorização do trabalhador rural e da preservação de conquistas sociais.

O raio-x das urnas: a exceção no mapa paranaense

Os números eleitorais da última década expõem com clareza o fenômeno da cidade:

Em 2018, enquanto o Paraná conferia 68,43% dos votos válidos no segundo turno a Jair Bolsonaro e 31,57% a Fernando Haddad, São Jerônimo da Serra caminhou na direção oposta, dando a Fernando Haddad 56,62%, Jair Bolsonaro teve 53,38% da preferência nas urnas.

Em 2022, enquanto o Paraná conferia 62,40% dos votos válidos no segundo turno a Jair Bolsonaro e 37,60% a Lula, São Jerônimo da Serra caminhou na direção oposta, dando a Lula 55,87%, Jair Bolsonaro teve 44,13% da preferência nas urnas.

Em 2026, enquanto o Paraná conferia 62,58% dos votos válidos no segundo turno a Jair Bolsonaro e 37,42% a Lula, São Jerônimo da Serra caminhou na direção oposta, dando a Lula 54,38%, Flávio Bolsonaro teve 45,62% da preferência nas urnas.

Esse comportamento não se revelou um ponto fora da curva temporário, refletindo uma dinâmica política estrutural que contrasta diretamente com os índices registrados no restante do interior paranaense.

Um farol de pluralidade

Para os eleitores e lideranças locais que integram essa resistência, o posicionamento político da cidade é motivo de orgulho. Em um estado onde expressar visões progressistas pode, muitas vezes, parecer remar contra a maré, São Jerônimo da Serra firma-se como um lembrete vivo de que a pluralidade democrática ainda encontra espaço para respirar no interior do Paraná.